Não obstante a verdade estampada na cara de todos, os
governantes insensíveis e inescrupulosos, que, a fim de
justificar o aparelho repressivo do Estado, sem coragem
para enfrentar as raízes da insegurança pública,
resolvem impor o entendimento de que a causa de todos os
males está no crime organizado, que se faz representar
com exclusividade no tráfico de entorpecentes nas
favelas.
A partir daí, com a visão militar do confronto e da
eliminação do inimigo, passaram a atrofiar o
policiamento ostensivo e preventivo, transformando em
rotina operações policiais de grande vulto. As
conseqüências não poderiam ser piores, na medida em que
comunidades inteiras, já penalizadas pelo abandono,
ainda se vêem invadidas, agredidas e violentadas.
O contraditório que qualquer policial medianamente
informado sabe é que os grandes chefes do tráfico não
moram na favela, que o volume maior da venda de
entorpecentes não se dá na favela e que quem compra
entorpecentes na favela é o viciado pobre ou
desesperado. E sabe mais qualquer policial, que para
prender o traficante, da favela ou do asfalto há a
necessidade de um trabalho de inteligência e de
investigação, para que a ação de polícia seja seletiva,
abandonadas as operações de grande vulto que vem
destruindo a existência do policiamento ostensivo normal
(PM) e desviando a atuação da polícia de investigação
(PC).
O modelo baseado no confronto já produziu mortes demais.
Não se tem estatística sobre o número de mortos nas
comunidades faveladas em conseqüência da ação do Estado.
Entretanto, somente nos últimos oito anos,
aproximadamente 1000 policiais militares foram mortos
por ferimentos de arma de fogo.
Ademais, os policiais militares, também, são oriundos de
comunidades carentes, sendo obrigados a reprimir a sua
própria origem, de onde são expulsos ou mortos quando
descoberta a sua atividade profissional. Enfim, chega de
massacre, chega de jogar pobre contra pobre, chega de
mentira, chega de incompetência, chega de cumplicidade
com o verdadeiro crime organizado.
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