VER OS JOGOS PAN-AMERICANOS DE 2007 COM OS OLHOS DO POVO

O país inteiro ainda comemora o sucesso brasileiro nos jogos Pan-Americanos, realizados na Costa Rica. A participação de nossos atletas foi considerada uma das mais destacadas da história do esporte brasileiro.

É a hora, então, de debatermos de modo mais aprofundado os Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, em 2007. Sem dúvida, será um dos maiores eventos da cidade e do Brasil, com grande repercussão no país e na América Latina. Representa uma vitória de toda a sociedade e seus reflexos se farão sentir nas áreas esportiva, econômica, social e política.

Procura-se transmitir a idéia de que existe um grande consenso e que os Jogos estão acima das divergências e de conceitos diferentes sobre o que é melhor para a cidade. Como a realização dos Jogos vai movimentar a economia e a sociedade como um todo, busca-se criar uma unidade sobre os temas envolvidos na questão: segurança, criação de empregos e oportunidades, obras viárias e de saneamento, construção de parques esportivos etc.

No entanto, devemos apontar outras direções que contribuam com o debate.

Até agora tem predominado uma abordagem de fundo empresarial, baseada na oportunidade de realização de negócios nas múltiplas atividades que os jogos irão proporcionar. Essa visão prioriza a aliança com empresas, suas representações e os círculos de desportistas/empresários ligados aos negócios do setor.

Do mesmo jeito que empresas, empresários e celebridades são convocados a participar - o que é fundamental para os Jogos - a população e suas organizações também devem ser chamadas. O cidadão comum não pode ser apenas um figurante cuja finalidade é lotar estádios, torcer e aplaudir.

Os Jogos Pan-Americanos devem ser um instrumento de inclusão popular no processo social, através da integração do esporte com a educação, a saúde e a vida comunitária.

Nesse sentido, é preciso alterar a concepção que prioriza o centro de excelência esportiva no lugar da proposta que defende oportunidades iguais para todos. A prática de esporte é um direito da população e não apenas uma chance de sucesso para os melhores ou os mais aptos.

A própria formação de um contingente superior de campeões será feita, de forma muita mais consistente, quando se apoiar na permanente renovação humana que só a ampla participação pode proporcionar.

O Pan 2007 é oportunidade de incentivo ao esporte amador praticado nas comunidades, nos clubes e associações esportivas; de aumentar a consciência cívica e de participação, de motivar a criatividade e o talento de crianças, jovens e adultos. Além do estímulo a professores, educadores, instrutores, assistentes sociais e de todos os que atuam nas áreas afins.

O ambiente criado pelos Jogos constitui também poderosa experiência de convivência democrática com outras culturas e tradições, já que milhares de estrangeiros ? em particular, latinos ? estarão por aqui.

O eixo da difusão da prática desportiva entre crianças e jovens deve ser redirecionado para uma nova política a partir do aproveitamento e ampliação dos tradicionais clubes de subúrbio. A palavra de ordem é: vamos aproveitar sua capacidade instalada. A maioria tem campos de futebol e algumas outras instalações; vamos ampliar construindo piscinas, parques aquáticos, quadras poli esportivas, pistas de atletismo etc.

A revitalização dos clubes deve se dar em torno de um amplo programa de esportes, educação e saúde -com destinação de verbas da organização dos Jogos -capaz de atrair famílias, escolas, entidades representativas de moradores, comerciantes e empresários locais. O processo é mobilizador; crianças, jovens, adultos, idosos devem ser convocados, já que a prática esportiva é também condição para a prevenção e manutenção da saúde, para a diminuição da violência e da insegurança social.

É preciso resgatar o conceito já esquecido dos clubes sócio-recreativos, em torno do qual as comunidades desenvolviam os laços de solidariedade, respeito e os valores da democracia.

Os nossos campeões de hoje e do passado, muitos deles oriundos de famílias de trabalhadores de baixa renda, são a prova viva de que a socialização da prática esportiva é o desafio que devemos assumir para um grande Pan 2007.

E é também o melhor caminho para "ganharmos" a realização das Olimpíadas 2012 para o Rio de Janeiro e o Brasil.