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31/10/2007- Expediente
Inicial
Discurso - Paulo Ramos - Irregularidades no sistema de medição da Ampla
Texto do Discurso
O SR. PAULO RAMOS – Sr. Presidente, Srs. Deputados, participamos ainda há pouco
de mais uma reunião ordinária da Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga
o crime que vem sendo perpetrado por uma concessionária de serviço público, a
Ampla, em relação ao sistema de medição centralizada para o seu faturamento.
Falo em crime que vem sendo perpetrado pela concessionária Ampla, na medida em
que já está mais do que comprovado que o sistema, além de não estar devidamente
certificado, significa uma espécie de extorsão ao consumidor.
A Ampla, com a cumplicidade da Agência Nacional de Energia Elétrica,
cumplicidade que vem a partir do seu presidente, Sr. Gerson Kelman que aliás é
daqui do Rio de Janeiro e com a omissão da direção do Inmetro – quero aqui fazer
uma homenagem aos técnicos e aos funcionários do Inmetro mas não a sua direção.
Mas a Ampla com a cumplicidade da Aneel e com a omissão da direção do Inmetro
implantou um sistema de medição centralizada que não é reconhecido em nenhuma
parte do mundo.
Veja bem, Sr. Presidente, a Ampla aqui no Estado do Rio de Janeiro está
implantando um sistema que desrespeita o consumidor, que aumenta o seu
faturamento em função de algo que representa um absurdo tão grande que chegamos
a imaginar: como é possível a ocorrência de uma ofensa àqueles que dependem da
energia elétrica por ela distribuída!
A cada comprovação de irregularidades ou de ilegalidades, a Ampla oferece uma
desculpa, imediatamente acolhida pela Agência Reguladora e pela direção do
Inmetro. Já está devidamente comprovado, através de laudos do Inmetro, que o
sistema é imprestável.
Depois de muita pressão, foram instalados medidores comparadores que começaram a
comprovar que a Ampla, por meio do seu sistema, media para muito mais. Enquanto
o medidor comparador instalado pelo Inmetro constatou uma variação de 12 kw numa
residência, o medidor da Ampla marcou uma variação de quase 80. Veja bem, de 10,
12 para 80. E a Ampla que acompanha, milimetricamente, o trabalho realizado
pelos técnicos do Inmetro apresentou uma desculpa: erro de cadastro. É como se a
desculpa por ela apresentada pudesse corrigir a falha encontrada.
O que a Ampla está confessando, tentando ocultar a verdade é que o consumo
medido numa residência tem a conta encaminhada para outra residência. Esse é o
erro de cadastro.
O SR. PAULO MELO – V. Exa. me concede um aparte?
O SR. PAULO RAMOS – Concedo o aparte ao Sr. Deputado Paulo Melo.
O SR. PAULO MELO – Sr. Deputado Paulo Ramos, eu sou cliente da Ampla, como
V.Exa. sabe eu sou do Município de Saquarema, sou servido pela Ampla. É muito
mais do que isso, ficamos só na questão do chip. Mas não é só isso. A Ampla
fraudulentamente, no exercício da sua atividade, tem causado inúmeros prejuízos.
Estou entrando com uma ação. Fiquei vinte dias fora da minha casa, tudo
registrado porque existe uma variação muito grande. Em vinte dias, sem se ligar
refletores, V. Exa. sabe, sem se ligar sauna, sem ligar nada, a conta veio 5%
mais cara do que a anterior na mesma leitura.
Imagine V. Exa., no relógio que está ali embaixo em que temos visibilidade,
podemos fazer uma leitura também do relógio, já é complicado fazer a leitura
embaixo, imagine fazer uma leitura no chip. Então, é uma questão fraudulenta, é
um estelionato ao consumidor.
Esta questão do chip é mais do que um estelionato, é uma vergonha, é um
desrespeito, é uma afronta às leis constituídas e que não podemos permitir. Sou
a favor da privatização, mas bandido no setor público ou bandido no setor
privado, é bandido do mesmo jeito.
O SR. PAULO RAMOS – Aproveito, Sr. Deputado Paulo Melo, o aparte de V. Exa. para
dizer que são muitos os consumidores que têm procurado vários parlamentares,
vários membros da CPI, especialmente nas regiões atendidas ou mal atendidas pela
AMPLA, demonstrando suas contas. É impressionante. Sabe o que a AMPLA vai dizer
a V. Exa.? Que na residência tem gato. É isto o que ela vem dizendo em relação a
todos os consumidores, mas estamos diante, na verdade, do gato ao contrário. O
gato vem da própria AMPLA.
Sr. Presidente, sou membro efetivo da Comissão e sou o relator. Já tenho
elementos suficientes para enquadrar o presidente da Agência Reguladora, a
direção do INMETRO - a parte da direção, a partir do presidente - envolvida
nesta questão, e os diretores da AMPLA em formação de quadrilha formada para
fraudar o faturamento prejudicando o consumidor. E esse sistema, reitero, que
não está certificado e implementado em nenhuma parte do mundo, incorpora um
avanço tecnológico tal que os técnicos da AMPLA não necessitam comparecer ao
local. É um sistema completamente informatizado que possibilita a companhia
cortar o fornecimento.
A pressão contra o consumidor é muito grande e quando um consumidor encontra uma
variação de 20, 30%, ele ainda fica intimidado para fazer qualquer reclamação,
até porque as dificuldades para as reclamações são tão grandes; se reclamar na
Agência Reguladora, ela diz que primeiro tem que reclamar na própria
concessionária.
Para reclamar no INMETRO, tem que pagar previamente R$ 50,00. Imagina! Então, o
consumidor de baixa renda, que já está fazendo das tripas coração para pagar a
conta, ao receber a conta com um percentual muito elevado, ele se sente animado
para reclamar. Não pode buscar a concessionária, corre o risco de cortarem a
energia dele. Se for a Agência Reguladora, a ANEEL, tem que passar primeiro pela
concessionária, e para contar com o apoio do INMETRO, tem que pagar R$ 50,00.
Vou concluir, Sr. Presidente, dizendo que tomei conhecimento hoje da
possibilidade - nem posso acreditar que seja verdade - de a LIGHT começar a
instalar, sem autorização da Agência Reguladora, igual sistema. E está começando
pela Favela de Manguinhos, onde já teria instalado 98 medidores como
experiência, dispondo ainda de mais dois mil para instalação. Eu nem posso
acreditar. Estou fazendo contato hoje com a direção da Light para tomar
conhecimento.
Hoje, um técnico do Inmetro, indagado sobre esta possibilidade – não posso dizer
que ele tenha confirmado –, disse que o Inmetro já recebeu reclamações sobre a
instalação provisória feita ou sobre a possível instalação provisória feita pela
Light. Se porventura esse sistema – ainda não certificado internacionalmente,
ainda não certificado pelo Inmetro e que já demonstrou claramente que representa
uma extorsão ao consumidor – se tornar universal para todas as concessionárias
de energia elétrica, seguramente veremos uma reação muito grande por parte da
população.
Que Ampla e seus diretores saibam que as providências já vão ser tomadas, que já
temos comprovação. Veio aqui hoje a presidente do Instituto de Pesos e Medidas,
Sra. Soraya Santos, que trouxe também inúmeras outras informações sobre a Ampla.
Sr. Presidente, a situação é de calamidade e a população tem que ser protegida.
O SR. NATALINO – V. Exa. me concede um aparte?
O SR. PAULO RAMOS – Pois não, Sr. Deputado Natalino. Concluirei logo após o
aparte de V. Exa.
O SR. NATALINO – Muito obrigado, Sr. Deputado Paulo Ramos.
V. Exa. está sempre muito atento ao que prejudica a população. É muito
importante o que V. Exa. está falando. Lembro que quando um consumidor recebe
uma visita da Light ou da Ampla, são os próprios técnicos da empresa que dizem:
“Encontrei um gato aqui.” São os próprios técnicos que trabalham para as
concessionárias que detectam isso e o consumidor é conduzido à delegacia, sofre
um transtorno tremendo. Deveria o técnico de um órgão público fazer essa
vistoria.
O SR. PAULO RAMOS – Agradeço, Sr. Deputado Natalino, a sua intervenção.
Qualquer desvio de conduta do consumidor é problema de polícia, mas quando o
desvio parte da direção da Ampla ou da direção da agência reguladora ou quando
há omissão da direção do Inmetro, o problema é judicial, os responsáveis não
sofrem a mesma conseqüência imediatamente. De qualquer maneira, Sr. Presidente,
faço coro aos anseios da população: fora o sistema de medição centralizada! Fora
a Ampla!
TOPO
30/10/2007- Expediente
Inicial
Discurso - Paulo Ramos - Governo Sergio Cabral
Texto do Discurso
O SR. PAULO RAMOS – Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, já está mais do que
evidente os propósitos do Governo Sérgio Cabral no concernente à administração
pública. Esta Casa, por sua maioria, aprova uma mensagem do Governo tratando das
parcerias público-privadas, onde todos os setores da administração pública são
incluídos. Inclusive aqueles setores considerados, com toda visibilidade, como
funções de Estado. Incluiu a saúde, a educação, a segurança pública, o meio
ambiente, as políticas sociais. Tudo!
Não há um setor da administração pública que não esteja incluído ante a
perspectiva de parcerias do Governo com a iniciativa privada. Aliás, uma
parceria em que a iniciativa privada não entra com um tostão. Quem entra com
todos os recursos é o poder público. Todos os fundos existentes foram incluídos,
compondo um fundo único para as parcerias público-privadas.
O Governo agora seleciona doze empresas públicas, para transferir a gestão à
iniciativa privada: Emater, Ceasa, Caserj, Cehab, Rio Trilhos, Codim, todas. A
gestão será transferida para a iniciativa privada.
E começa o Governo com um programa de demissão incentivada, experiência que vem
do Governo Collor. Demissão incentivada. Praticamente todos que se deixaram
seduzir pelas chamadas demissões incentivadas estão hoje arrependidos. Mas aqui,
no Estado, o Governo Sérgio Cabral vai virar as costas para a gestão de áreas
importantes. E está começando, com aquelas doze empresas e a primeira foi a
Emater. Por que a Emater? Foi a Emater porque esta Casa também aprovou um
Projeto chamado Zoneamento Ecológico-Econômico para escancarar as terras do
Estado do Rio de Janeiro. Primeiro foi feita uma parceria com a Aracruz Celulose
para plantação de eucaliptos; agora há o chamado programa de biocombustíveis,
para expansão da plantação de cana-de-açúcar.
E por que a Emater, dizia eu? Porque a vocação do Rio de Janeiro não é a
silvicultura, não é a monocultura. A vocação do Rio de Janeiro é a plantação de
hortaliças, legumes, atividades desenvolvidas por pequenos agricultores,
agricultura familiar, cooperativas. O papel da Emater é importantíssimo na
extensão rural. A Emater dava sustentação e apoio a esse tipo de agricultura,
que o governo do Estado pretende aniquilar. Abre as portas de recursos públicos,
faz uma parceria com a monocultura e contribui para aniquilar os produtores
rurais. Começa pela Emater.
Agora, como se não bastasse – aliás, é algo que foi anunciado, porque o governo
chegou a encaminhar a esta Casa uma emenda constitucional para que pudesse
contratar, genericamente, servidores celetistas –, está transferindo a
responsabilidade pelo caos na administração pública para os servidores
estatutários, embora durante a campanha eleitoral o Sr. Governador tenha
percorrido todas as representações de servidores públicos assumindo
compromissos, alguns dos quais chegou a subscrever. Em outras categorias de
servidores públicos, chegou a dizer: “Faço questão de que vocês gravem o que
estou dizendo para cobrar depois.”
Fez isso na área da Segurança Pública. Foi à Rua Camerino, ao Clube de Oficiais
da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros, e, em sendo apoiado pela Sra.
Governadora de então, foi tudo orquestrado para que a sede da entidade fosse
pequena para tantos policiais militares e bombeiros que lá compareceram. Afirmou
o seguinte: “O governador que diz que não tem dinheiro para pagar o pessoal da
Segurança Pública é incompetente. Quero que vocês gravem o que estou dizendo.” O
pessoal gravou. Está lá gravada a afirmação do Sr. Governador do Estado.
Acabamos de receber uma outra mensagem do Sr. Governador, tratando das fundações
públicas de direito privado para administração dos hospitais. É preciso dizer
que em tendo comparecido, na campanha eleitoral, a uma reunião com os
profissionais da Saúde no Sindicato dos Médicos, o Sr. Governador subscreveu um
compromisso, assim como subscreveu com o pessoal da Educação no Sepe e na Uppe,
em Niterói, com todas as reivindicações da categoria. Além de dizer que o Iaserj,
rede de saúde que atende ao servidor público, seria recuperado, ainda
implementaria o plano de cargos, carreiras e salários da Saúde. Embromou durante
o ano de 2007. Agora, encaminha a esta Casa uma mensagem que não é
surpreendente, não é surpreendente.
Os hospitais no Rio de Janeiro já foram administrados por cooperativas. Deu
errado.
Agora, numa espécie de sucedâneas das cooperativas, vêm as fundações — fundações
públicas de direito privado. Olha que figura esdrúxula. No fundo, pretende, o
governador Sérgio Cabral, entregar, à iniciativa privada, a administração dos
hospitais. S.Exa. pensa que vai conseguir enganar, chamando de “fundação
pública”, mas “de direito privado”.
O que orienta é o regime jurídico. Se é de direito privado, como dourar a pílula
chamando de fundação pública?
Basta verificar o texto da mensagem para constatar que o governador não vai
implementar o plano de cargos, carreiras e salários dos profissionais da Saúde
do Estado. Não há possibilidade. Não está tão bem definida a posição dos
servidores estatutários dentro da fundação.
Vai admitir servidores para a área de Saúde, diz que por concurso público, mas
serão celetistas os servidores. Como? Como vão conviver, num mesmo hospital,
numa mesma rede de Saúde, servidores “públicos” submetidos a regimes jurídicos
diferentes? Regimes jurídicos diferentes, remuneração diferente, jornada de
trabalho diferente.
Que figura esdrúxula pretende o governador do Estado para a nossa área de Saúde?
É óbvio, o insucesso da proposta é evidente, mas, numa fase primeira, consegue
S.Exa. iludir a população. Assim como na época das cooperativas, que a população
chegou a acreditar. Agora, a população só vai compreender a esparrela em que
caiu, quando os procedimentos muito mais caros, muito mais lesivos aos cofres
públicos, e sem resultados, começarem a ser implementados.
No momento, o governador pode imaginar estar levando alguma vantagem ante a
opinião pública, porque o caos na Saúde é evidente. A população espera
providências e as providências devem vir a partir de políticas públicas.
E mais, a insatisfação presente na área de Saúde, como em outras áreas, também
decorre da ação do governador, porque o governador fez parte de todos os últimos
governos.
S.Exa., na fase da campanha eleitoral, tentou demonstrar, e muitos acreditaram,
que representava alguma mudança, já que se comprometia com tudo o que era
pregado pelos servidos públicos. Agora, vem e faz tudo diferente.
Há aquele ditado: a mentira tem pernas curtas. Um governador que defende a
liberação das drogas; um governador que diz que, nas comunidades menos
favorecidas, as mães que têm filhos, ali há uma fábrica de marginais, é um
governador que não tem compromisso nem com sua origem e nem com sua própria
prole, quanto mais com o servidor público.
TOPO
30/10/2007- Expediente Final
Discurso - Paulo Ramos - Direitos Trabalhistas
Texto do Discurso
O SR. PAULO RAMOS – Sr. Presidente, Senhoras e Senhores Deputados, temos
acompanhado, nesses últimos anos, um grande esforço daqueles que governam o
nosso País, afrontando aquilo que eles adjetivam como Era Vargas.
Mas, na verdade, o que eles afrontam é a conquista do povo brasileiro durante a
Era Vargas, na medida em que foram destruindo tudo aquilo que representou aquele
período histórico – e, naturalmente, os seus sucedâneos: a Era Vargas, depois a
Era Juscelino Kubitscheck e, mais tarde, o período João Goulart.
Tudo aquilo que representava a Soberania Nacional – tudo aquilo que representava
a construção de um modelo baseado na justiça social, a partir dos valores no
trabalho – vem sendo destruído. E ainda chamam a isso de modernidade...
“Modernidade” significa o empobrecimento do País; significa a perda da Soberania
– quando falo em empobrecimento do País, falo do povo brasileiro, da sua parcela
majoritária que vai sendo jogada, a cada dia, com muito mais velocidade, na rua
da amargura, não obstante a propaganda oficial.
Mas o Povo Brasileiro, a cada dia, vai construindo e produzindo mais riquezas. E
essas riquezas vão sendo apropriadas por aqueles que dominam os diversos setores
da nossa economia – como também o Poder Executivo e a maioria do Poder
Legislativo.
Agora, estamos diante do que posso adjetivar como sendo uma grande farsa:
procuram destruir o Imposto Sindical, como se o nome “imposto” representasse
algo que venha a contrariar o interesse daqueles que o pagam, quando acontece
rigorosamente o contrário.
Eles falam: “Esse imposto vem da Era Vargas!”; “As leis trabalhistas, a
organização sindical... tudo cópia da Carta del Lavoro, de Mussolini...”
Estabelecem uma similitude que tem pertinência quanto à fase histórica. Claro
que tem pertinência! Mas que também representa a única possibilidade que teve a
classe trabalhadora de se organizar.
O fato de a Legislação Trabalhista, que vem da Era Vargas, ter algumas linhas de
contato com a Carta del Lavoro, não indica sequer que a Carta del Lavoro tenha
significado um grande prejuízo para os trabalhadores italianos. Pelo contrário:
os trabalhadores italianos – que hoje, veja bem, mantêm praticamente a mesma
estrutura sindical – têm muita força política. Não dá para comparar hoje a
situação vivida pelos trabalhadores na Itália com a dos trabalhadores aqui no
Brasil.
Os trabalhadores italianos se estruturaram, se organizaram e não se deixaram
manipular. A Itália, hoje, é uma das maiores economias do mundo. Aqui no Brasil,
não obstante as nossas riquezas, não obstante tudo aquilo que o Brasil deveria
representar, na medida em que mais produz e mais constrói, menos recebe como
contrapartida.
Agora eles estão se agarrando no imposto sindical. O cinismo é tão grande e a
desfaçatez tão maior, que eles estão debatendo no Congresso Nacional o fim do
imposto sindical para os trabalhadores, mas a contribuição patronal, que orienta
a organização dos patrões, esta não está sendo alcançada. Estão alterando a
máxima: “Trabalhadores do mundo, uni-vos!” Aqui, no Brasil, não. Agora é assim:
“Trabalhadores, desagreguem-se. Patrões, unam-se!” É a inversão.
Mas, quanto ao imposto sindical, eu tenho conversado com várias pessoas e tenho
participado de vários debates sobre a matéria. Tenho por hábito perguntar aos
presentes, nessas oportunidades, como faço agora aos que ouvem este meu
pronunciamento: quem já participou da organização de um bloco carnavalesco, de
um clube sócio-recreativo, de uma associação de moradores, de qualquer
organização que dependesse de alguma contribuição e foi lá voluntariamente, ou à
tesouraria do clube, ou ao banco depositar a quantia? É claro que isso não
acontece. Dependendo do grau de dificuldade daquele que tem esse dever ou
interesse de contribuir, não vai fazer nada disso. Não vai.
Aqui, no Rio de Janeiro, estamos vivendo uma situação interessante em relação à
Light. A Light agora não quer permitir o desconto em folha, de seus
funcionários, das contribuições para o Clube da Light, para a cooperativa, para
as associações. Qual é o objetivo da empresa? Na medida em que os trabalhadores
não podem ter o desconto em folha, dificilmente o pagamento será feito pelo
funcionário na tesouraria das entidades.
O imposto sindical, que representa um dia por ano de trabalho, na verdade,
facilita muito a organização sindical, porque oferece ao sindicato o recurso de
que necessita para suas atividades e para sobreviver, aí sim, sem depender do
governo. O imposto sindical não se transforma em verba pública. O imposto
sindical pertence aos sindicatos, não pertence ao governo. É claro que, a partir
desse imposto, há outras destinações que não o próprio sindicato em si, mas
sempre voltadas para o interesse da classe trabalhadora.
Podemos imaginar, por exemplo, enfrentar algumas situações: acabar com o imposto
sindical dos trabalhadores, acabar com o imposto sindical do patrões, acabar com
o Sistema S! Seria razoável aceitar essa proposta?
Sr. Presidente, Srs. Deputados, venho a esta tribuna como integrante, como
membro do Partido Democrático Trabalhista, dizer que nós, do PDT, cultuamos a
Era Vargas, defendemos os direitos dos trabalhadores, defendemos o imposto
sindical, assim como defendíamos a Justiça do Trabalho com a representação
classista! Se houve desvios de conduta, se a escolha dos juízes classistas
obedeceu a critérios não muito razoáveis, isso é que deveria ser corrigido, e
não acabar com a representação classista na Justiça do Trabalho.
Aquilo era um avanço de justiça. Assim como defendemos o imposto sindical, assim
como ficamos felizes quando a Assembléia Nacional Constituinte transformou em
cláusulas pétreas os direitos dos trabalhadores, como também defendemos a
unicidade sindical.
Enfim, Sr. Presidente, não podemos aceitar a manipulação da informação. Todos
sabem que não é possível organizar coisa alguma que dependa de contribuição se
não houver a facilitação para que esta contribuição seja recolhida. E o imposto
sindical é que tem garantido a autonomia dos sindicatos, pois com ele o
trabalhador tem a liberdade sindical, ele tem a possibilidade de se organizar.
Estamos torcendo e esperamos, Sr. Presidente, especialmente agora, que o Sr.
Ministro do Trabalho pertence aos quadros do PDT, que esse crime contra os
trabalhadores não seja perpetrado.
Muito obrigado.
TOPO
25/10/2007- Expediente
Inicial
Discurso - Paulo Ramos - Sucateamento da Saúde Pública
Texto do Discurso
O SR. PAULO RAMOS – Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, imaginei a esta
altura da minha vida que nada mais me surpreenderia. Entretanto, a cada dia me
surpreendo. Agora, até o leite está adulterado, justamente o leite, algo tão
precioso por causa da sua vinculação à maternidade. O leite não é apenas um
alimento; o leite é um símbolo. Ocorre que empresários inescrupulosos chegaram
ao ponto de adulterá-lo. É algo, assim, aparentemente inimaginável. É de se
esperar que as investigações sejam aprofundadas e aqueles que ousaram cometer
tal crime sejam identificados e responsabilizados.
Sr. Presidente, aqui no Estado do Rio de Janeiro, mais uma surpresa aparece,
agora vinda da Secretaria de Estado de Saúde. O Sr. Secretário, certamente
seguindo a política do governo para a área de saúde, está desativando a
neurocirurgia em diversas unidades de saúde: no Pedro II, em Santa Cruz; no
Rocha Faria, em Campo Grande; no Carlos Chagas, em Marechal Hermes; e no Getúlio
Vargas, na Penha – todos hospitais de emergência. E isso ocorre exatamente numa
fase em que a neurocirurgia vem sendo mais exigida, tendo em vista conseqüências
ligadas à insegurança pública e aos acidentes automobilísticos.
O serviço de neurocirurgia vem sendo muito mais exigido e, em face da
precariedade de meios, decide o Sr. Secretário Estadual de Saúde incrementar tal
serviço em dois hospitais apenas: o Adão Pereira Nunes, em Saracuruna, Duque de
Caxias; e o Azevedo Lima, em Niterói. Se houver a necessidade de alguém se
socorrer desses serviços, sendo acidentado em Santa Cruz, por exemplo, deve
procurar um dos dois hospitais.
Não sei qual é a concepção que tem o Sr. Secretário sobre emergência, o que é
para ele uma emergência. O correto seria fazer justamente o contrário,
restabelecer onde não houver neurocirurgia e aperfeiçoar onde há. Mas não!
Aí, Sr. Presidente, surgem situações inusitadas. No Hospital Getúlio Vargas, por
exemplo, o serviço de neurocirurgia está completamente montado, com recursos da
própria comunidade e com os oferecidos pela entidade nacional de neurocirurgia.
O problema é que o número de profissionais é insuficiente, mesmo estando o
hospital completamente equipado, estruturado para a prestação desse serviço.
O Sr. Secretário está determinando a transferência dos equipamentos e do pessoal
para as duas unidades citadas - o Hospital Adão Pereira Nunes, em Saracuruna, e
o Hospital Azevedo Lima, em Niterói.
A reação dos profissionais de saúde tentando mobilizar a comunidade de diversas
áreas tem sido, primeiro, a de esclarecer a população e esperar que a mesma se
manifeste com todas as dificuldades, já que são muitas as carências. Há também
um movimento, tendo em vista que os profissionais de saúde recebem uma
remuneração incompatível com o serviço que prestam, daqueles que, não vendo
nenhuma alternativa no desenvolvimento da atividade de forma digna com uma
retribuição compatível, começam a deixar o serviço público.
É preciso que o Secretário de Estado de Saúde assuma as suas responsabilidades.
Era de se imaginar que S. Exa. adotasse algumas medidas de emergência para que
todos os hospitais funcionassem com neurocirugia, uma especialidade mais do que
necessária. São necessárias não só providências de curto prazo, imediatas, como
também um projeto de implementação progressiva de valorização desses serviços, e
não a sua desativação.
Venho a esta tribuna inicialmente para manifestar a minha solidariedade aos
profissionais de saúde que ainda resistem, ainda estão compenetrados do papel
que desempenham e do compromisso que têm com a população. Manifesto
solidariedade, obviamente, também às comunidades que vão ficar abandonadas, às
famílias daqueles que passarão a precisar do serviço de neurocirurgia e repulsa
ao Secretário de Estado de Saúde que, pelo menos, compareceu dias atrás à
Comissão de Saúde.
Estou encaminhando ao presidente da referida Comissão requerimento para que ela,
em uma reunião de urgência, convoque o Secretário de Estado de Saúde, Dr. Sérgio
Côrtes, para que explique as razões de seu procedimento. S. Exa. veio prestar
contas praticamente de aspectos financeiros, embora tenha sido uma importante
reunião daquela Comissão. Desativar a neurocirurgia, como o Sr. Secretário está
fazendo em vários hospitais, chega a ser uma crueldade adicional.
É de se esperar uma reversão desse quadro em homenagem aos acidentados, às
vítimas de balas achadas e perdidas, aos profissionais da segurança pública e a
todos os que não mais terão a oportunidade, talvez, de chegar aos Hospitais Adão
Pereira Nunes, em Saracuruna, e Azevedo Lima, em Niterói, desde que necessitem
fazer uma cirurgia dessa especialidade.
Ficam registradas a denúncia e a esperança de que o Secretário de Estado de
Saúde, Dr. Sérgio Côrtes, que tantos malabarismos fez na mídia para demonstrar o
conhecimento e os compromissos que tem na área, possa demonstrá-los na prática.
Muito obrigado, Sr. Presidente.
TOPO
24/10/2007- Expediente
Inicial
Discurso - Paulo Ramos - A manipulação pela criminalização das favelas e
os usuários de drogas
Texto do Discurso
O SR. PAULO RAMOS – Sr. Presidente, Sras e Srs. Deputados, venho a esta tribuna,
para abordar um tema sobre o qual tenho falado em inúmeras outras oportunidades,
mas, agora, provocado por uma pesquisa levada a efeito pela Fundação Getúlio
Vargas, tratando da questão da clientela, do público usuário de substância
entorpecente no nosso Estado.
Um dado curioso, e que considero lamentável, é que todas as abordagens hoje são
travadas em torno do filme Tropa de Elite, lamentavelmente, porque o filme Tropa
de Elite se integra a um conjunto de iniciativas que se assemelham e que são
alavancadas sempre pelo mesmo sistema de comunicação, que acaba liderando os
demais. Assim tivemos com os documentários do MV Bill, assim tivemos com o filme
Cidade de Deus, e agora com o filme Tropa de Elite. Essas iniciativas têm o
objetivo central de acentuar a criminalização das favelas, das comunidades menos
favorecidas. E a pesquisa é apresentada como se representasse uma novidade. A
abordagem é a abordagem como se todos estivessem diante do novo.
Participamos todos de uma sociedade de consumo e sabemos que consumidores são
aqueles que têm renda, e que o consumo cresce na medida em que cresce a renda.
Uma parcela expressiva da população ainda não está no mercado de consumo; está
no consumo do desespero, porque, rotineiramente, não consegue consumir nem o que
é essencial para a sobrevivência.
Portanto, constatar que a parcela maior que consome entorpecente está situada
nas classes A e B não representa novidade, porque nas classes A e B estão os
maiores consumidores de tudo, são os que moram em condições melhores, são os que
freqüentam os melhores restaurantes.
Talvez, se fizessem uma pesquisa sobre o consumo da cachaça, seguramente haveria
uma inversão. Mas quanto ao consumo de substâncias entorpecentes, é óbvio, que a
parcela maior tem que estar dentre os consumidores de alta renda, porque a
substância entorpecente é algo caro.
Os dados: do universo pesquisado, 49% são homens, entre 20 e 29 anos – um
percentual também alto. E a pesquisa: 50%. São brancos, veja bem, 85%.
E aí, Sr. Presidente, embora a pesquisa demonstre aquilo que salta aos olhos de
qualquer observador, a matéria; a pesquisa; é chamada de “Droga de Elite” – já
para fazer uma referência ao filme – mas procura dizer que o perfil do
consumidor, como se isso não fosse algo largamente conhecido, é o perfil
registrado no filme Tropa de Elite.
Pensei até que fossem invocar uma frase que foi muito repetida, de autoria de
delegado Hélio Luz: “Ipanema brilha à noite.” Todos lembram disso.
Mas aí vem a perversidade, porque – diante de uma pesquisa que demonstra
claramente que o mercado consumidor de entorpecente está nas classes mais
favorecidas – ao final da matéria, no Jornal do Brasil, diz o seguinte: “A
pesquisa durou um mês e meio e está disponível na integra no site www.fgv.fgv.br.”
Aliás, vamos pegar a pesquisa toda, porque ela é muito mais ampla. Mas veja bem:
mostra como é a percepção da violência na opinião desses usuários.
“Perguntados se havia problemas relacionados a crimes na vizinhança, 62%
responderam que sim.” Aí vem a conclusão atribuída a um dos pesquisadores: “Isso
poderia ser considerado um fator afastado da elite...”, como se a elite não
tivesse na sua vizinhança a existência de manifestações de criminalidade.
Então, veja bem, repito: “Isso poderia ser considerado um fator afastado da
elite, mas pode se referir, por exemplo, ao jovem que mora próximo à
boca-de-fumo”. Aí, já é se utilizar da pesquisa para criminalizar, porque todo
mundo acha, todo mundo pensa, todo mundo aceita que a boca-de-fumo está na
favela.
Aí vem outra questão que deveria ter sido abordada na pesquisa – vou verificar
na pesquisa toda – se houve essa preocupação. Já reiterei aqui; tratando desse
tema; que quem dispõe de recursos, sem sair de casa, compra qualquer coisa, por
telefone, pela internet.
Compra qualquer coisa e a mercadoria, qualquer que seja, é levada em casa. Qual
a razão de ser diferente para a substância entorpecente?
Já tive oportunidade de dizer aqui, e repito, que quem compra entorpecente em
favela é o viciado pobre ou desesperado. O consumidor que tem renda não precisa
correr o risco de buscar tal substância nas comunidades mais carentes, onde há
atuação da polícia. É claro que ele não tem necessidade, viciado que é,
consumidor que é, de comprá-la onde há risco; ele tem a possibilidade de
recebê-la em casa, como recebe outra mercadoria qualquer. E aí, Sr. Presidente,
utilizam-se artifícios com o objetivo de colocar o foco em outras questões, até
porque como a classe dominante tem interesse, alguns desavisados são induzidos a
defender o interesse dos grandes traficantes, que é a legalização. As coisas se
conjugam, porque toda a orquestração hoje verificada tem o objetivo de influir
para levar incautos a admitir que a legalização é a saída.
Sr. Presidente, que fique registrado que a pesquisa demonstra onde está o centro
de consumo. Ela não pode servir de instrumento para criminalizar ainda mais
aqueles que não têm qualquer alternativa outra de sobrevivência digna. Não há de
se justificar e não é aceitável a sobrevivência, em qualquer comunidade, através
da venda de entorpecentes. É inaceitável isso! Há adolescentes e jovens que
estão diante da impossibilidade de uma vida sadia, aqueles que enveredam por
esse caminho.
De qualquer maneira, a pesquisa da Fundação Getúlio Vargas demonstra onde está o
centro de consumo e, obviamente, que tais consumidores não vão buscar o
entorpecente nas comunidades menos favorecidas, eles o recebem em domicílio. Vou
ler toda a pesquisa para sugerir aos pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas
que acrescentem uma outra pergunta: onde compram o entorpecente? No filme Tropa
de Elite, os universitários compravam o entorpecente dentro da universidade. Os
distribuidores eram os próprios membros daquela comunidade, mas a fonte de
fornecimento era a favela. Ali vem a manipulação que acaba seduzindo aqueles que
não procuram se aprofundar no conhecimento da matéria e, de boa-fé, deixam-se
induzir por uma manipulação que, tenho certeza, não irá prosperar.
Muito obrigado.
TOPO
16/10/2007- Expediente
Inicial
Discurso - Paulo Ramos - Homenagem a Leonel de Moura Brizola
Projeto autoriza recriar a Inspetoria de Grande Porte para controlar impostos
Texto do Discurso
O SR. PAULO RAMOS – Sr. Presidente, Srs. Deputados em primeiro lugar, quero
lamentar a decisão de S. Exa. o Sr. Governador Sérgio Cabral, vetando um projeto
de autoria de V. Exa., Deputado Zito, que ora preside esta Sessão, dando a uma
importante avenida que cruza todo o Município de Caxias e adentra o Município de
Belford Roxo, dando o nome de Leonel de Moura Brizola, em substituição ao nome
Avenida Presidente Kennedy. Não quero aqui debater a importância para a história
da humanidade de um ex-Presidente dos Estados Unidos, mas V.Exa. caminhou com
grande felicidade, quando procurou homenagear Leonel Brizola, dando àquela via
seu nome. Certamente, para a população de toda a Baixada Fluminense, Leonel
Brizola tem grande relevância, merece ter sua memória perpetuada, através de
inúmeras homenagens. Aliás, a presença de Leonel Brizola na Baixada Fluminense,
no Município de Duque de Caxias e no Município de Belford Roxo, é algo muito
contundente. A população de ambos os municípios manifestam permanentemente
reconhecimento.
Não é possível imaginar que o Sr. Governador do Estado possa ter vetado o
projeto de V.Exa., sem nenhuma justificativa plausível, a não ser a mediocridade
da interferência, talvez do atual Prefeito do Município, imaginando estar diante
de uma competição na disputa pela Prefeitura da Cidade – como se V.Exa. tivesse
apresentado o projeto tentando angariar prestígio eleitoral. Isso é diminuir
muito a homenagem que estava sendo prestada. O Sr. Governador se associou ao
Prefeito da Cidade, penalizando os munícipes. É a população, tenho certeza
absoluta, que reivindicou, porque a iniciativa de V.Exa. é uma iniciativa que se
compatibiliza com algo que era esperado pela população de Caxias e de Belford
Roxo, aliás, principalmente do Município de Duque de Caxias.
Mais uma vez, como tive a oportunidade de fazê-lo quando da apreciação do
projeto, quero dizer que nós, do PDT, ficamos muito felizes com a iniciativa.
Dar o nome daquela importante via a Leonel de Moura Brizola é para nós, do PDT,
algo de grande significado. Esperamos que esta Casa tenha o discernimento de,
pelo menos, derrubar o veto. Quando a matéria for reapreciada, a Casa, que
aprovou, obviamente assumirá a responsabilidade de derrubar aquele veto.
Também, Sr. Presidente, venho a esta tribuna para tratar de outro tema, que é
objeto de projeto de lei que estou encaminhando hoje, versando sobre a recriação
da chamada Inspetoria de Grande Porte. Todos nós – aqueles que aqui estavam
acompanharam e a população do Estado, certamente, ainda tem na memória – estamos
lembrados do escândalo de sonegação fiscal, sonegação de ICMS, escândalo
acontecido há alguns anos e que ficou rotulado como “Caso Silveirinha”. O
escândalo aconteceu exatamente em função da criação da Inspetoria de Grande
Porte, que dotou a Secretaria de Estado de Fazenda de um instrumento hábil e
capaz de fazer com que os chamados grandes contribuintes não sonegassem, já que
o Secretário de Fazenda, à época, Dr. Sasse, constatou que um percentual pequeno
de contribuintes – chamados de “grandes contribuintes” – era responsável pelo
recolhimento aproximado de 85% do ICMS.
E entendeu por bem concentrar a fiscalização sobre esses grandes contribuintes:
o setor de cervejas e refrigerantes, o setor de combustíveis e lubrificantes, o
setor metalúrgico e o setor de supermercados – estes poucos setores que
prejudicavam, porque não recolhiam à Receita Estadual.
E, tendo em vista a ação dos fiscais – talvez uns poucos fiscais já com algum
pequeno histórico ou um histórico desconhecido de desvio de conduta – surgiu a
denúncia. E, vejam bem: denúncia veio da Suíça, onde o tal de Discount Bank
trocou de controladores e os novos controladores resolveram verificar a ficha
cadastral de seus correntistas, descobrindo que um pequeníssimo grupo de fiscais
do Rio de Janeiro tinha depósito de fontes escusas ou inconfessáveis.
Todos sabem que a Suíça é uma lavanderia, um paraíso fiscal. Há lá um arquivo
criminal e, então, foi fácil destruir uma idéia, alcançando alguns poucos
fiscais com depósitos naquele banco.
Mas o objetivo principal não foi a moralidade pública, mas sim acabar com a
Inspetoria de Grande Porte – pois o único resultado palpável daquele escândalo
foi o fim daquela Inspetoria.
Agora a Assembléia Legislativa acaba de criar uma Comissão Parlamentar de
Inquérito para investigar ou para criar condições para a evolução da receita e,
nas investigações, os mesmos setores são citados como os setores que contribuem
negativamente – que deixam de recolher o que é devido – para que a receita não
evolua, isto é, o setor de cervejas e refrigerantes, o setor de combustíveis e
lubrificantes, o setor metalúrgico, o setor energético e um; que é muito
pulverizado, que dificulta muito a fiscalização; que é o setor tradicional
conhecido de supermercados.
E aí vêm Prezunic, Sendas, Intercontinental...várias redes que, comercializando
uma infinidade de produtos, têm a possibilidade de sonegar se não houver uma
fiscalização mais constante, mais presente, mais detida.
Então imagino que, ao apresentar esse projeto – de recriação da Inspetoria de
Grande Porte – ofereço a esta Casa a possibilidade de recuperar na memória o que
houve, saber das conseqüências e poder dizer que a Secretaria de Fazenda do
Estado necessita dispor de um instrumento mais contundente; mais ágil,
exatamente para exercer uma fiscalização rigorosa e continuada sobre aqueles que
respondem por aproximadamente 85% da receita oriunda do imposto de circulação de
mercadorias e serviços.
Sr. Presidente, espero então que todas as bancadas debatam, analisem e aprovem
um projeto que é autorizativo, na certeza de que assim estaremos contribuindo
para que a receita de ICMS, do Estado, corresponda à verdade, sem sonegação e
sem manipulação. E aí o Estado disporá de mais recursos para fazer face às
exigências da população, nas áreas da educação, da saúde, de segurança.
Por último, registrando, que eles não são grandes contribuintes, porque
contribuinte é o consumidor. Eles são os grandes recolhedores, porque quando não
recolhem eles aumentam suas margens de lucro, frustrando as expectativas da
população.
O SR. DIONÍSIO LINS – V. Exa. me concede um aparte?
O SR. PAULO RAMOS – Pois não, Sr. Deputado Dionísio Lins.
O SR. DIONÍSIO LINS – Eu estava em meu gabinete, ouvindo V. Exa., meu professor
nesta Casa. Quando falou em supermercado, eu não poderia deixar de vir até aqui,
sendo eu presidente da Comissão da Pirataria, dar o meu testemunho. Hoje, a
máquina que está montada na Secretaria de Estado de Fazenda, se fizermos uma
operação, vamos pegar cinco máquinas piratas de cada vinte que estão nos
supermercados. Esta é a denúncia que tenho. E o secretário turista – porque esse
secretário é turista, ele fica pouco tempo no Brasil – e quem manda, V. Exa.
sabe, é o Pompílio, é o Professor, que agora deixou de ser superintendente para
ser consultor. E aí o Secretário teve a desfaçatez, Sr. Presidente e Sr.
Deputado Paulo Ramos, de fazer blitz em magazines. Mas não vai aos
supermercados, não vai às siderúrgicas. E aí a fila continua andando. Depois vêm
dizer que a política de arrecadação é transparente. É transparente, sim, no que
respeita à sonegação.
Muito obrigado.
O SR. PAULO RAMOS – Agradeço seu aparte, Sr. Deputado Dionísio Lins, e encerro
dizendo que esta Casa também dispõe de instrumentos próprios, no sentido de
ajudar à fiscalização e poder flagrar essas irregularidades, essas ilegalidades
que V. Exa. denuncia, adicionando algo de que eu não tinha conhecimento.
Imaginar que estabelecimentos comerciais utilizem máquinas piratas para os seus
registros de venda, chega a ser mais que surpreendente.
Temos um setor de energia, de grandes contribuintes; o setor de cervejas e
refrigerantes; o setor de combustíveis e lubrificantes; o de produtos
siderúrgicos, todos contribuintes que merecem, juntamente com os supermercados,
uma fiscalização mais efetiva e eficaz.
O SR. DOMINGOS BRAZÃO – V. Exa. me concede um aparte?
O SR. PAULO RAMOS – Pois não, Sr. Deputado. Meu tempo já encerrou, mas vou ouvir
o aparte de V. Exa.
O SR. DOMINGOS BRAZÃO – Eu agradeço. Quero apenas levantar aqui algumas
questões. Primeiro, quero me referir à política de se concentrar nos grandes
contribuintes, porque todos sabemos que não dispomos de recursos, nem humanos,
nem materiais, para fiscalizar o Estado inteiro. Este é um raciocínio lógico.
Quando se concentra, passamos a dar uma atenção maior àqueles que, digamos, têm
80% ou 90% de toda a arrecadação do Estado. Então, teoricamente, se fizermos
crescer 10, 15, 20% essa arrecadação, vamos ver o bolo crescer
consideravelmente. Às vezes se perde no varejo, quando se quer fazer uma
fiscalização no Estado todo. Isso, já disse, teoricamente falando.
Se algo está acontecendo diferente disso, é claro que esta Casa também tem
responsabilidade, tem uma comissão inclusive para acompanhar a arrecadação,
muito bem presidida pelo nosso companheiro Deputado Luiz Paulo, que todos
sabemos, além de ser um parlamentar muito trabalhador é um homem que sabe
diferenciar o que é fazer oposição e desenvolver um trabalho sério à frente
daquela Comissão, com quem todos nós queremos colaborar.
Mas de qualquer maneira, são acusações muito graves. Tenho certeza de que
procuraremos fazer o melhor, sem atrapalhar o trabalho da Comissão. Até mesmo os
deputados de oposição desejam o melhor para o Estado.
Esse trabalho servirá de alerta até porque, Sr. Deputado Paulo Ramos, se tiver
ocorrendo, o que eu acho difícil, não é essa a orientação do Governador; ao
contrário, S. Exa. tem desenvolvido uma política transparente. Enviou inclusive
a esta Casa – tão logo tomou posse – a mensagem que aprovamos, disponibilizando
na internet toda a receita do Estado.
Era este o meu pronunciamento. Concentrar para melhor fiscalizar. Se estiver
acontecendo algo diferente disso é claro que será apurado, e os responsáveis
devidamente punidos, assim como ocorreu no caso do Propinoduto.
Muito obrigado.
O SR. PAULO RAMOS – Agradeço o aparte de V. Exa.
Encerro dizendo que todos queremos a verdade tributária, sem sonegação e
excessos do Poder Executivo, da fiscalização. A verdade tributária é o que nos
interessa. Estou convicto de que a recriação da Inspetoria de Grande Porte fará
com que a receita do Estado evolua.
Muito obrigado.
TOPO
16/10/2007- Expediente Final
Discurso - Paulo Ramos - Causas das mortes de Policiais
Texto do Discurso
O SR. PAULO RAMOS – Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, poucos dias atrás,
sob sua Presidência, tivemos oportunidade de concluir uma Comissão Parlamentar
de Inquérito para investigar as causas das mortes de policiais. Um trabalho que
recolheu muitas informações preciosíssimas comprovou que, no Estado do Rio de
Janeiro, o número de policiais mortos, especialmente policiais militares, tendo
por base cem mil habitantes, é um número muito maior do que o número de civis
mortos. Isso significa que, em ser policial ou policial militar no Estado do Rio
de Janeiro, há um risco muito maior de morrer por ferimento de arma de fogo do
que, comparativamente, qualquer cidadão.
Nestes últimos dias, de domingo até hoje, três policiais militares foram mortos
por ferimento de arma de fogo. Os jornais de hoje estampam a morte de mais um,
na Cidade de Deus. A morte, como decorrência de um modelo equivocado de
segurança pública, que insiste em patrocinar o confronto, em empurrar os
policiais para situações de risco, aliás, um modelo que também insiste em
acentuar a criminalização da favela, ou seja, policiais militares ou policiais
oriundos das classes menos favorecidas são empurrados para um confronto com as
camadas já excluídas da população. O equívoco é tão grande e continuado que não
podemos admitir a existência de má fé, de algo deliberado.
Há um claro objetivo dentro dessa lógica da política de segurança pública, que
se baseia na tragédia. Pela experiência que já acumulei, convenci-me de que a
política de segurança pública é definida em nosso Estado pelos grandes
traficantes de entorpecentes. E os grandes traficantes de entorpecentes, os
verdadeiros controladores do crime organizado, não estão nas favelas. Não é
crível que alguém que produza e venda determinado material vá estocá-lo
exatamente em locais onde este possa perecer, no caso do entorpecente, nos
locais onde o material possa ser apreendido. Vejam se há alguma lógica em deixar
as substâncias entorpecentes justamente nas favelas, para onde está dirigido o
aparato policial para fazer a apreensão.
A bem da verdade, no modelo de gestão que submete e orienta o Estado na sua
política de segurança, o entorpecente estocado nas favelas para a venda faz
parte da perda possível. O que está ali é para correr o risco mesmo de ser
apreendido. Por outro lado, a fim de agudizar o confronto, os próprios
controladores do crime organizado armam aqueles integrantes das comunidades
carentes, que ficam com a responsabilidade de vender o entorpecente que faz
parte da perda possível, pois isso agudiza o confronto, ao mesmo tempo em que
mobiliza a sociedade. Os fatos se transformam em grandes matérias, ocupando
páginas dos jornais, canais de televisão e estações de rádio, porque são tantos
os mortos de lado a lado, são tantos os feridos – agora chegaram a ferir uma
senhora de 95 anos dentro de casa, na cama. Uma vida que quase não estava sendo
ceifada pelas forças da natureza acaba sendo mutilada pela força do que é mais
ignominioso, já que a pessoa precisa ter tranqüilidade pelo menos em casa. Quem
promove a intranqüilidade é o próprio Estado.
Sr. Presidente, é fácil verificar a intenção. Hoje eu já não tenho dúvidas de
que ao promover o confronto, ao acentuar o confronto, ao criminalizar as
comunidades menos favorecidas há um objetivo, que vai ficando cada dia mais
evidente tendo em vista as matérias publicadas nos jornais. O que pretendem é a
descriminalização das substâncias entorpecentes. São várias as matérias, nesses
últimos dias já houve até debates, mobilizaram os mesmos policiólogos, os mesmos
sociólogos, os mesmos que opinam sobre o modelo de segurança pública e até
exercem sua influência, também são convocados para debater a descriminalização.
Aliás, sempre com posições favoráveis à descriminalização, são os mesmos.
Sr. Presidente, como poderíamos aceitar uma manipulação tão clara num País como
o nosso de dimensões continentais? Como caminhar para a descriminalização? Por
outro lado, adolescentes e jovens sem perspectivas. Por qual substância a
descriminalização começaria? Pela maconha?
Aliás, saiu um artigo grande num jornalão no final de semana com a posição de
médicos e cientistas falando sobre os benefícios da maconha.
O SR. FLÁVIO BOLSONARO - Vossa Excelência me concede um aparte?
O SR. PAULO RAMOS – Concedo o aparte ao Sr. Deputado Flávio Bolsonaro.
O SR. FLÁVIO BOLSONARO – Sr. Deputado Paulo Ramos, às vezes me pergunto se
muitas dessas opiniões não são omitidas visando um benefício próprio – aquela
expressão: legislar em causa própria. É a única explicação sobre o que leva um
médico a falar que uma substância como a maconha não produz efeitos nocivos no
organismo de alguém...
O SR. PAULO RAMOS – Não produz a dependência.
O SR. FLÁVIO BOLSONARO – Produz dependência, produz destruição de neurônios.
Imagine agora, Sr. Deputado Paulo Ramos, se a maconha fosse descriminalizada, os
nossos adolescentes chegando a uma sala de aula, Sr. Deputado Coronel Jairo,
para assistir a uma matéria, após fumar um cigarrinho de maconha.
O SR. PAULO RAMOS – Um baseado.
O SR. FLÁVIO BOLSONARO – O baseado. Uma coisa que tira a concentração de uma
pessoa, altera as suas funções psicomotoras. Quem defende isso parece que nunca
viu um exemplo próximo, até mesmo na sua família, de como a maconha pode ser o
primeiro passo para desgraçar e desmembrar essa família. Jogar o jovem, o
adolescente para o uso de drogas mais pesadas.
Concordo com as palavras de V.Exa. e parece até que em vários lugares do mundo
onde houve uma redução drástica da criminalidade foi preciso descriminalizar as
drogas. O que mais me assusta, é que se discute não é nem a descriminalização da
maconha, é das drogas como um todo.
Fica aqui o nosso posicionamento, o debate será longo e esperamos que prevaleça
o bom senso e as drogas não sejam colocadas com tanta facilidade para a nossa
juventude, nas portas das nossas casas.
O SR. PAULO RAMOS – Agradeço o aparte de V.Exa. e peço a sua atenção para um
aspecto. Quem está conduzindo essa orquestração são os verdadeiros controladores
do crime organizado, porque eles que terão os benefícios porque eles manipulam a
informação, eles têm acesso aos meios de comunicação, eles têm, em alguns meios
de comunicação, uma parceria muito grande. Não é à toa que alguns meios de
comunicação são considerados também centros de consumo, ou antros de consumo.
Todos conhecemos, todos sabemos das bandejas que passam, os cigarrinhos que são
distribuídos, as agulhas, as seringas que são fornecidas, mas são locais aonde a
Polícia não vai. Trata-se de área de exclusão. Ouço, às vezes, algumas figuras
ligadas à Segurança Pública dizerem o seguinte: “Não pode existir área no Estado
aonde a Polícia não tem acesso”. Mas eles falam isso em relação às comunidades
carentes. Há no Estado, entretanto, áreas aonde a Polícia não tem acesso, que
são exatamente os centros mais sofisticados de consumo, que são freqüentados por
alguns que controlam meios de comunicação.
Sr. Presidente, não posso imaginar que a população vá se deixar enganar, vá se
deixar seduzir. Esse modelo de Segurança Pública está equivocado, esse modelo
baseado no confronto e na criminalização da favela. Isto já está muito mais do
que reconhecido, até porque é uma política continuada ao longo dos últimos anos,
que já demonstrou que, simultaneamente, aniquilou a Polícia Militar nas suas
atribuições em relação ao policiamento ostensivo normal, transformando-a em
tropa de choque, fazendo operações policiais com muita freqüência, abandonando o
chamado policiamento ostensivo. A mesma coisa com a Polícia Civil, que é uma
polícia de investigação que vem se transformando em polícia de choque, até
uniformizada.
O que temos, então, é a supressão de uma atividade do Estado, que consiste em
dar segurança à população. É possível dizer e denunciar que a insegurança
pública hoje decorre muito mais da ação do Governo, através da Polícia, do que
da ação dos criminosos, porque são tantas as conseqüências nefastas. Afinal de
contas, o que vem sendo evitado? Mas reitero que as conseqüências recaem também
sobre a família policial militar. Será que os próprios integrantes das
instituições, especialmente dos escalões dirigentes, não se comovem vendo os
policiais militares do 18º Batalhão aos prantos, abraçando os familiares, a
filha do cabo morto? Se eles não são capazes de resistir à imposição de um
modelo que está levando a tropa à morte, eles são capazes de quê?
Existia uma expressão, Sr. Deputado Flávio Bolsonaro, que hoje não vejo ser
muito repetida no interior das instituições policiais. Quando alguém era muito
fraco, incapaz de resistir ao mínimo de pressão, dizia-se assim: “São
pusilânimes!”. São pusilânimes, porque estão aceitando um modelo de Segurança
Pública que vem empurrando os comandados, os subordinados, os dirigidos, para a
morte, para o banco dos réus, para a incapacidade definitiva, pois muitos ficam
paraplégicos, tetraplégicos, amputados. As instituições viram as costas, não há
assistência social, não há nenhum socorro, como se os profissionais da Segurança
Pública fossem descartáveis: “Agora não servem mais! Podem ficar aí, ou com a
aposentadoria profissional, ou podem ficar as viúvas com uma pensão reduzida.
Não interessa!”
Sr. Presidente, é preciso mudar o modelo de Segurança Pública, é preciso acabar
com a política baseada, única e exclusivamente, no confronto. É preciso
denunciar que a política de Segurança Pública está sendo elaborada, no Estado do
Rio de Janeiro, pelos verdadeiros controladores do crime organizado. E não é sem
motivo que o Sr. Governador do Estado também defende a descriminalização.
S. Exa. faz parte dessa corrente. S. Exa. é um dos principais responsáveis,
porque, sendo governador do Estado, tem a obrigação de definir uma outra
política, de não aceitar e de se dar ao respeito. Um governador do Estado que
não respeita o sofrimento de famílias inteiras e imagina estar diante de um
modismo não merece estar onde está sentado, Sr. Presidente.
Muito obrigado.
TOPO
10/10/2007- Expediente
Inicial
Discurso - Paulo Ramos - O superfaturamento da Ampla
Resposta ao sindicato dos servidores da Alerj
Sonegação de Impostos
Texto do Discurso
O SR. PAULO RAMOS – Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, como não tive a
oportunidade de estar ontem aqui, na Casa, na medida em que juntamente com os
membros da Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga o caso Ampla, o
sistema de medição centralizado, os famosos chips, perdi a oportunidade de
tratar dos dois assuntos que me trazem a esta tribuna.
Em primeiro lugar, preciso dizer que, sendo liderado pelo Sr. Deputado Zito,
aqui presente, e a Sra. Deputada Graça Matos, o Sr. Deputado Marco Figueiredo, o
Sr. Deputado Altineu Côrtes e a Sra. Deputada Jane Cozzolino, fomos ouvir a
direção da Agência Nacional de Energia Elétrica. Conseguimos ouvir o Presidente,
Sr. Gerson Kelman, que foi de uma desfaçatez, de um cinismo sem precedentes.
Diante de todas as perguntas feitas, o Presidente da Aneel batia sempre na mesma
tecla, na tentativa inútil de justificar sua cumplicidade para com a
concessionária Ampla, que vem assaltando os consumidores de energia elétrica por
ela atendidos com um sistema de medição que sempre superfatura.
A reação tem sido muito grande nas comunidades e já temos elementos suficientes
para dizer, primeiro, que a agência reguladora – quando digo a agência
reguladora, digo os seus dirigentes, juntamente com o Inmetro; e quando falo
Inmetro, Instituto Nacional de Metrologia, não falo o Inmetro como órgão, nem os
técnicos do Inmetro, mas o Presidente do Inmetro – formou, juntamente com os
donos da Ampla, uma verdadeira quadrilha. Não pode existir outra adjetivação,
porque são inúmeros os laudos, são muitas as provas que demonstram que o sistema
de medição centralizada prejudica o consumidor, fatura para mais. É um assalto
com o argumento de que o objetivo consiste em eliminar o gato. Então, temos o
gato ao contrário e, lamentavelmente, com o patrocínio daqueles que deveriam
defender a sociedade e corrigir os excessos da concessionária. De qualquer
maneira, a ida a Brasília foi muito proveitosa, porque tivemos a oportunidade da
certificação, da comprovação de que o Sr. Gerson Kelman, à frente da Agência
Nacional de Energia Elétrica, tudo faz para proteger os desvios da Ampla em
detrimento dos interesses dos consumidores.
Mas também, Sr. Presidente, venho a esta tribuna tratar de um tema, para mim,
sob certos aspectos, inusitado. Tomei conhecimento hoje de uma carta distribuída
aos servidores da Alerj, assinada pelo Presidente do Sindicato da categoria. Ele
se ateve ao pronunciamento que fiz quando da votação de várias mensagens, uma do
Chefe do Poder Judiciário, outra do Ministério Público e, também, do Presidente
da Alerj.
Paralelamente aos inúmeros erros de português – deveria o Presidente do
Sindicato tomar cuidado em relação àquilo que escreve –, que são muitos, se
fosse um ou outro seria perdoável, até porque, às vezes, na agilidade dos
trabalhos, nas dificuldades que temos, assinamos sem uma leitura muito atenta;
paralelamente a se manifestar contrariado com o meu pronunciamento, porque eu
disse aqui simplesmente que não temos recebido do sindicato nenhuma
reivindicação, uma vez que o Presidente do Sindicato trata diretamente com o Sr.
Presidente da Casa.
Agora, ouço dos servidores do Legislativo algumas observações desairosas em
relação ao procedimento do Presidente do Sindicato. Quem tem que resolver essa
questão são os servidores.
Mas, de tudo o que está ali escrito, somente uma coisa me preocupou: ele diz que
compareci algumas vezes – duas vezes – na sede que os servidores têm agora,
aqui, próximo à Avenida Brasil, em festas; em duas festas. Naturalmente
compareci, com muita alegria, e fui muito bem recebido pelos servidores, porque
fui convidado – convite que, obviamente, não partiu do Presidente do Sindicato.
O convite foi feito por companheiros aqui, que exercem suas tarefas e que têm
conosco um relacionamento fraterno.
Não vai ser por isso que deixarei de comparecer: nas próximas vezes, em sendo
convidado, certamente estarei lá.
Mas quero reiterar que não temos recebido – assim como recebemos de outras
categorias – qualquer reivindicação que venha da direção do sindicato. Ouvimos
sim reivindicações nos corredores, conversando com um ou outro servidor.
Entretanto, a representação da categoria se dá de uma forma um tanto
desconhecida. Não vou dizer subalternamente subterrânea, porque quem tem que
julgar o procedimento da direção sindical são os sindicalizados. Não me cabe
julgar o comportamento do Presidente.
O que registrei aqui – e reitero – é que não tenho tido; não temos tido;
conhecimento de nenhum pleito que tenha sido dirigido ao Sr. Presidente da Casa
e que parta do Sindicato.
Se o Presidente tem uma interlocução muito fraterna com o Sr. Presidente da
Casa; se ele tem outros mecanismos para alcançar a realização das reivindicações
da categoria, então ela, a categoria, que o julgue.
Simplesmente reitero o meu sentimento de que o Sr. Presidente desta Casa e o Sr.
Procurador de Justiça Chefe, quando encaminharam uma mensagem com um percentual
de 4% para os servidores – de modo a causar constrangimento aos servidores do
Poder Judiciário, aos serventuários da Justiça, mas, acima de tudo, numa
colaboração estranha com o Poder Executivo, para sepultar a independência do
Poder Judiciário – isto foi fator, para mim, de grande preocupação, porque temos
um esforço sepultando a independência do Poder Judiciário e um comportamento
subalterno do Poder Legislativo. E, mais subalterno ainda, o do Ministério
Público Estadual.
De qualquer maneira, não poderia deixar de fazer este registro, porque tomei
conhecimento da correspondência. E quero dizer que tenho certeza de que os
servidores do Poder Legislativo certamente estão muito bem representados: têm os
seus pleitos atendidos; devem ter; e vêem, no sindicato, a expressão melhor das
suas pretensões, porque o sindicato abre mão – abre mão – da participação dos
representantes do povo com assento nesta Casa, exatamente para defender as
reivindicações dos servidores do Poder Legislativo.
Ele tem uma linha direta com a Presidência da Casa; tem uma interlocução direta
com o Sr. Presidente da Casa. E sequer faz uma reunião! Nunca tomei conhecimento
de Assembléia Geral dos servidores do Poder Legislativo! É algo, assim,
estranho, mas que caminha.
Afirmou que presidi por vários anos – e é verdade – a Comissão de Servidores
Públicos. Foram seis anos. E realmente nunca o Presidente do Sindicato esteve lá
na Comissão, para encaminhar qualquer pleito. Nunca.
E registro que percebo o sofrimento dos servidores do Legislativo, quando outras
categorias aqui vêm e ocupam as galerias ali reivindicando, pressionando. Mas
eu, pessoalmente, que tenho uma visão de respeito ao servidor público de um modo
geral, o papel do Estado na economia e na administração – tenho essa posição –,
fico às vezes até frustrado porque convivemos com tanta intimidade com os
servidores do Poder Legislativo e nunca tomamos conhecimento de seus pleitos –
dos pleitos coletivos. De qualquer maneira, quem deve julgar são os próprios
servidores do Poder Legislativo.
Por último, Sr. Presidente, assomo à tribuna para tratar de um tema para o qual
não podemos virar as costas. Há pouco, esta Casa conclui uma Comissão
Parlamentar de Inquérito tratando da arrecadação, o aumento da arrecadação ou a
redução da arrecadação, pois é através do pagamento dos impostos o governo
dispõe de recursos para realizar suas tarefas públicas, para cumprir os
compromissos assumidos com a população. Tenho por hábito sempre reiterar que o
ideal seria que a idéia da criação da Inspetoria de Grande Porte passasse a ser
rediscutida, porque são os grandes contribuintes que, simultaneamente, são os
grandes sonegadores; são eles que deixam de fazer retornar aos cofres públicos
aquilo que recolhem dos próprios consumidores.
Dentre os vários setores envolvidos – tivemos setor de combustíveis e
lubrificantes, de cervejas e refrigerantes – está o de alimentos, que virou
sinônimo de abuso. Esta Casa, através da Comissão própria, tem que fazer uma
fiscalização mais aguda sobre os supermercados. As denúncias começam a chegar e
vemos que são vários: Mundial, Guanabara, Multi Market, Intercontinental,
Prezunic, Sendas... todos deixando de cumprir com seus deveres para com a
arrecadação pública. Então, estou analisando e amanhã vou encaminhar à Comissão
própria, já que, embora eu tenha integrado a CPI como suplente, acompanhei os
trabalhos, uma vez que meu partido estava muito bem representado, na CPI, pela
Sra. Deputada Cidinha Campos – que ora subscreve o livro para fazer uso da
palavra.
Não é possível, não é razoável que um setor, que é o de alimentos e outros
produtos de consumo intensivo pela população, fique sendo uma espécie de
principal sonegador. Então, é preciso uma inspeção, uma fiscalização bem
dirigida no setor de supermercados porque, aí sim, teremos a oportunidade de
conhecer a verdade desse setor, a verdade da arrecadação. Seguramente, com uma
fiscalização efetiva, feita com o apoio do Poder Legislativo, que há de buscar
os órgãos próprios, que há de buscar uma atuação mais eficaz da Secretaria de
Fazenda, o Sr. Governador poderá dispor de mais recursos para cumprir com alguns
compromissos, especialmente com os servidores públicos – compromissos às vezes
que ele próprio subscreveu, com o pessoal da saúde, da Educação e da Segurança,
por exemplo.
É preciso que tenhamos cuidado em cobrar do governo o cumprimento dos
compromissos assumidos na campanha eleitoral, mas que também façamos força para
que a arrecadação possa aumentar.
Abaixo os sonegadores! Pela verdade da contribuição que é feita pelos
consumidores!
Muito obrigado.
TOPO
04/10/2007- Expediente
Inicial
Discurso - Paulo Ramos - Processo de venda da Varig
Texto do Discurso
O SR. PAULO RAMOS – Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, venho à tribuna para
abordar um tema que talvez guarde uma vinculação, como está publicado hoje em
todos os jornais, tratando da condenação dos ex-controladores do Banco
Econômico, Sr. Ângelo Calmon de Sá.
Vejam bem que o fato que se transformou em processo criminal é de extrema
gravidade - a manipulação de resultados de aplicações com objetivo da aferição
de lucros, os mais extraordinários. O fato aconteceu em 1994/1995 e somente
agora, doze anos depois - não estamos falando de ladrão de galinha - vem a
condenação, vários foram condenados, penas diversas, penas privativas da
liberdade. Entretanto, como a condenação ainda é da 1ª Instância, os condenados
foram contemplados com o direito de, em liberdade, recorrerem da decisão
judicial. O mesmo está acontecendo com os controladores do Banco Nacional, a
família Magalhães Pinto. Estão todos condenados em 1ª Instância e, em liberdade,
recorrendo da decisão.
Naturalmente que, naquela quebradeira de bancos, são muitos os casos e eu venho
a esta tribuna tratar de algo parecido, que é a questão da Varig, até porque
esta Casa realizou uma Comissão Parlamentar de Inquérito que concluiu seus
trabalhos, tendo eu apresentado um voto em separado. E por quê? Porque, aqui,
durante os trabalhos da nossa CPI, já que a Varig era um patrimônio nacional,
todos não se cansam de manifestar o reconhecimento a respeito do significado da
Varig para a soberania nacional, para a economia nacional e até para as relações
internacionais do Brasil. Todos sabem disso. A Varig tinha o reconhecimento do
povo brasileiro, mas foi vítima de um grande golpe por nós aqui investigado.
Devemos reconhecer que enfrentamos gravíssimas dificuldades em nosso
relacionamento com o Judiciário estadual, inclusive quando investigávamos a
empresa com seus quatro controladores - um grupo de investimento americano
Matlin Patterson e mais três sócios brasileiros - cada um entrou com recursos
próprios. O grupo de investimento com o seu representante, Lap Chan, e Marco
Antônio Audi, Luiz Carlos Gallo e Marcos Raftel. Três brasileiros como pessoas
físicas, cada um entrou com seis milhões de dólares para a constituição de uma
empresa a participar do leilão da Varig. Tudo não apenas suspeito, mas
comprovadamente eivado de ilicitudes.
Imaginávamos que poderíamos aprofundar nossas investigações, com a quebra do
sigilo bancário, fiscal e telefônico dos envolvidos, o que é competência de
Comissão Parlamentar de Inquérito de qualquer Assembléia Legislativa. Esta
conquista decorreu da atuação dos Procuradores da Assembléia Legislativa, e este
resultado foi conquistado no Supremo Tribunal Federal. Comissão Parlamentar de
Inquérito de Assembléia Legislativa tem poderes para a quebra de sigilo
bancário, fiscal e telefônico. Quebramos. E os três envolvidos conseguiram uma
liminar na justiça do Rio de Janeiro, impedindo que as investigações fossem
aprofundadas.
Temos que registrar que enfrentamos seriíssimas dificuldades, tendo em vista a
lamentável ação da justiça do Rio de Janeiro. Quando falo da justiça do Rio de
Janeiro, naturalmente não estou me referindo a toda a justiça, mas àqueles
raríssimos poucos que estavam intervindo no famigerado processo de recuperação
judicial, que não recuperou rigorosamente nada, apenas permitiu a transição, a
baixo custo, para que os novos controladores vendessem, alguns meses depois, por
dez, 15 vezes o preço pago.
Não entendi por que matéria de tamanha relevância não foi publicada em nenhum
dos grandes jornais do Estado do Rio de Janeiro. A Folha de São Paulo e o Estado
de São Paulo vêm demonstrando o desentendimento entre os quatro malandros que se
associaram para a participação nessa falcatrua, nesse crime de lesa-pátria em
que se constituiu o aniquilamento da Varig, com a perda de empregos, a perda de
recursos da aposentadoria, o sofrimento de muitas famílias. Está aqui: “Matlin
Patterson recorre à justiça para recuperar 360 milhões de empréstimos concedidos
à companhia.” E vem demonstrando não apenas o procedimento dos sócios
brasileiros, mas também o procedimento do próprio grupo de investimentos.
No jargão popular, existe um ditado, que diz: “Brigam as comadres, aparecem as
verdades.” A verdade sobre a compra e venda da Varig ou sobre sua recuperação
judicial, que não aconteceu, talvez comece a aparecer agora, numa espécie de
briga de quadrilha. Os quadrilheiros estão brigando e as verdades começam a
aparecer.
Sr. Presidente, enfrentei ainda, como Presidente da CPI, e continuo enfrentando,
interpelações judiciais. Até a Associação dos Magistrados do Rio de Janeiro,
talvez induzida, seduzida ou iludida por algum dos seus membros, chegou a buscar
a proteção do próprio Judiciário, alegando que a CPI estaria interferindo num
outro Poder. E todos nós sabemos que Comissão Parlamentar de Inquérito é um
instrumento que as Casas Legislativas dispõem para investigar qualquer Poder. O
Poder Legislativo pode e até deve, por meio de Comissão Parlamentar de
Inquérito, investigar o Executivo e o Judiciário. Já houve até, no Congresso
Nacional, a CPI do Judiciário. Não pode investigar qualquer outra instituição
pública, porque o Poder Legislativo é que representa a totalidade da sociedade,
é o que tem esse poder.
Sr. Presidente, vamos agora continuar acompanhando, porque muitas outras
verdades vão aparecer, ficando aqui naturalmente a nossa alegria, porque estamos
convencidos, temos provas, mas não conseguimos levar a nossa CPI aos resultados
desejados, na medida em que enfrentamos inúmeros obstáculos, principalmente os
que foram colocados em nosso caminho pelo Judiciário estadual.
De qualquer maneira, como a verdade prevalecerá, teremos a oportunidade de
aprovar aqui o relatório. Apreciaremos a matéria na próxima semana, tenho a
impressão, e vamos ver se a Assembléia Legislativa, agora, muito mais motivada
do que sempre esteve, porque devemos dizer que a CPI da Varig aconteceu nesta
Casa com o apoio, praticamente, da unanimidade das bancadas. É claro que, e nem
vou registrar, neste momento, tivemos uma grande desilusão com um parlamentar,
que exerce mandato nesta Casa e que se apresentava como “filho da Varig”.
Durante as investigações, no momento pré-eleitoral, no ano passado, ele estava
muito presente; superada a eleição e reaberta a CPI, já nesta legislatura, não
tivemos mais a oportunidade de contar uma participação que teria sido preciosa.
Não quero tratar aqui desse assunto, mas apenas dizer que, à época, o Governo do
Estado - porque Estado do Rio de Janeiro também foi lesado - o Executivo
estadual, praticamente se uniu ao Legislativo com o objetivo de buscar a
verdade, e ainda, numa tentativa de salvar a Varig.
Vamos ver, mas fica a nossa certeza – não podemos esperar também doze anos – que
a verdade apareça e aqueles que praticaram todos os ilícitos, que vão sendo
progressivamente reafirmados, que possam responder por seus atos, sendo
condenados, porque não estamos diante de “ladrões de galinha”; esses contam com
a agilidade da Justiça. Aqueles que roubam milhões são os grandes beneficiários
de uma lentidão que é sempre denunciada por toda a sociedade.
Salve a Varig, ainda, Sr. Presidente!
Quero aqui, para concluir, manifestar a minha solidariedade aos funcionários da
Varig. Nem me refiro a ex-funcionários, porque eles continuam lutando, unidos e
atentos aguardando para que a Justiça possa ser feita e esses malandros possam
ser condenados.
Muito obrigado.
TOPO
04/10/2007- Expediente Final
Discurso - Paulo Ramos - CPI da Varig
Texto do Discurso
O SR. PAULO RAMOS – Sr. Presidente, vou ser muito rápido, nem levarei todos os
minutos, mas para reiterar pronunciamento que fiz no Expediente Inicial,
tratando da questão da Varig, a Varig, um patrimônio nacional que foi
apunhalado, jogando na Rua da Amargura milhares de servidores, milhares de
funcionários que perderam o emprego e os aposentados perdendo parcela da
aposentadoria. Agora, os malandros que compraram a Varig estão brigando, e o
desentendimento já faz com que outras denúncias comecem a surgir.
Fizemos nesta Casa uma Comissão Parlamentar de Inquérito que só não conseguiu
aprofundar a investigação, pelos obstáculos que foram colocados por um ou outro
representante do Judiciário do Estado do Rio de Janeiro. É preciso dizer que a
Comissão Parlamentar de Inquérito aprovou a quebra do sigilo bancário, fiscal e
telefônico daqueles que formaram uma empresa para comprar a Varig, cada um
entrando com 6 milhões de dólares – o Sr. Marcos Antônio Audi, o Sr. Marcos
Gallo e o Sr. Raftel, juntamente com o Grupo Matlin Patterson, americano, que
era representado pelo Sr. Lap Chan.
Depois de aprovada a quebra do sigilo bancário, fiscal e telefônico, competência
de CPI da Assembléia Legislativa, através de uma liminar obtida no Tribunal de
Justiça, eles impediram de a Comissão Parlamentar de Inquérito conhecer as
respectivas movimentações financeiras. Mas agora eles começam a brigar e o Fundo
Matlin Patterson já vem movendo ações judiciais na Justiça de São Paulo, e
também nos Estados Unidos, contra os três. Uma espécie de quadrilha formada,
servindo de laranja, para levar a Varig à situação a que chegou.
Portanto, Sr. Presidente, citei aqui, no Expediente Inicial, um ditado popular:
“Brigam as comadres, aparece a verdade.”
No mundo do crime, é quadrilha mesmo, Sr. Presidente!
TOPO
02/10/2007- Expediente
Inicial
Discurso - Paulo Ramos - A busca da descriminação da venda de substâncias
entorpecentes, por alguns setores da sociedade.
Texto do Discurso
O SR. PAULO RAMOS – Sr. Presidente, Srs. Deputados, venho a estar tribuna para
manifestar minha preocupação com algo que, progressivamente, vem ocupando
espaços na mídia na busca do convencimento da maioria esmagadora da população,
tendo em vista a participação sempre no tema de interlocutores que manifestam
opinião sempre no mesmo sentido. Venho aqui tratar de algo que deve preocupar
todos: o esforço desenvolvido com a participação da mídia, ou de parte grande da
mídia, na busca da descriminação da venda de substâncias entorpecentes.
Quero lembrar alguns documentários, algumas produções cinematográficas que
abordaram o tema, sempre dentro do mesmo viés: primeiro, o MV Bill, com seu
documentário sobre a Cidade de Deus; depois, o próprio filme Cidade de Deus, ou
Cidade dos Homens, com o seu seriado; e, agora, o filme Tropa de Elite, tudo com
o objetivo de participar da orquestração dentro do discurso da criminalização
das comunidades carentes, a criminalização das favelas.
Tem sido afirmado, ao longo dos últimos anos, inclusive a partir da política de
segurança pública, que o elemento propulsor da criminalidade é o crime
organizado. Reduziram o crime organizado ao tráfico de entorpecentes e
simplificaram ainda mais: nas favelas.
As políticas de segurança pública são desenvolvidas caminhando no sentido da
repressão, a mais cruel, única e exclusivamente nas comunidades carentes,
através do confronto, que vem dizimando muitas vidas, não apenas nas comunidades
carentes, mas também nos quadros das instituições policiais, principalmente nos
quadros da Polícia Militar.
Tudo, desvios de conduta, tudo vem sendo colocado dentro do mesmo saco com o
objetivo de fortalecer a tese da descriminação ou descriminalização da venda de
entorpecentes. Aliás, de forma muito velada, de modo a tentar demonstrar alguma
imparcialidade, ainda procuram responsabilizar, também, os próprios viciados,
aqueles que consomem entorpecentes. Mas o objetivo é um só: é atender ou
explicitar uma cumplicidade que deve ser percebida pela população.
Quem controla a política de segurança pública em nosso Estado é o crime
organizado, que vai alcançar um êxito maior se, porventura, esta proposta for
minimamente vitoriosa.
É preciso fazer algumas indagações. Ao liberar a venda de entorpecentes,
obviamente vão liberar também o consumo com o argumento de que a proibição tem
gerado muitos mais problemas. É a proibição que vem fazendo com que a população
viva a intranqüilidade do dia-a-dia.
E quais as indagações que devem ser feitas?
- Vamos começar liberando a maconha? Vamos começar liberando, também, o crack?
Ou liberando a venda de cocaína ou a venda do ópio? Ou vamos liberar as drogas
produzidas nos laboratórios? Vamos liberar o Ecstasy, por exemplo? Afinal de
contas, o que vai ser liberado e como vai ser liberado?
Num país como o nosso, em que os adolescentes e os jovens não têm qualquer
perspectiva, será muito fácil levar parcela expressiva ou parcela ainda maior da
nossa juventude, para buscar a solução de seus problemas através do uso de
substâncias entorpecentes.
Dizem assim: “Mas o fumo e as bebidas alcoólicas também estão liberados e causam
seriíssimos problemas”. Não são poucos os problemas. O ideal seria que houvesse,
também, um controle rigoroso caminhando para a proibição da venda dessas
substâncias.
E não me venham com argumentos ligados à economia porque já está provado, e mais
do que comprovado, que o que se recolhe de impostos com o fumo ou derivados do
fumo representa um valor muito menor do que as despesas para enfrentar as
conseqüências. E, a mesma coisa em relação às bebidas alcoólicas.
Há campanhas, as maiores, com o objetivo de esclarecer, com o objetivo de
reduzir o consumo. E esses esforços vêm sendo bem-sucedidos.
Qual a razão, agora, de incorporar as substâncias entorpecentes que aprofundam a
dependência, que causam resultados os mais danosos, os mais nocivos, não apenas
para os usuários, mas também para os seus familiares, para as respectivas
famílias e para a sociedade como um todo?
É preciso denunciar a hipocrisia, e dizer que aqueles que estão pregando a
descriminalização são aliados, conscientes ou inconscientes, dos traficantes de
entorpecentes. E a perversão com que se comportam, procurando criminalizar os
excluídos, os favelados, aqueles que já são vítimas de um modelo que concentra a
renda e joga na rua da amargura parcelas expressivas da população.
De qualquer maneira, Sr. Presidente, é lamentável que o governador do estado,
governador jovem que é, que deveria dar um outro tipo de exemplo, se associa a
essas correntes; talvez por modismo ou modernismo, quer ser modernoso. E, aí,
com a autoridade que alcançou, que conquistou, governador eleito, fortalece um
caminho que representará um sofrimento ainda muito maior para toda a população.
É preciso dizer que o envolvimento de adolescentes e jovens ou pessoas de todas
as idades, no uso de entorpecentes, inclusive as drogas sintéticas, isto vem
acontecendo em face da pressão da oferta.
É muito fácil ter acesso às substâncias entorpecentes. E o acesso é muito mais
fácil quanto mais distante das comunidades carentes. Porque sobre essas
comunidades é que recai a dura repressão do Estado. Só alguém possuído de
tamanha insanidade poderia preferir comprar, ou satisfazer o seu vício,
adquirindo a substância exatamente nos locais onde a polícia está reprimindo.
Chega a ser um desafio à própria razão.
Sr. Presidente, venho à tribuna para dizer que outros países buscaram esse
caminho com uma realidade completamente diferente da nossa; países onde há
perspectiva, onde praticamente todas as pessoas estão incluídas dentro do
modelo, que participam da divisão de renda com acesso aos bens de consumo;
países que tentaram e onde não há comunidades faveladas. E agora estão tentando,
a duras penas, reverter o quadro.
Imagina num país como o nosso, onde não há perspectiva, onde não há inclusão,
onde o desespero é grande, o sofrimento é muito maior! Imagina, qual a oferta,
ainda, à facilidade do acesso às substâncias entorpecentes! Nós, que já temos um
país malvisto em relação a critérios éticos, seremos também, com certeza
absoluta, o país dos drogados.
É preciso impedir Sr. Presidente, a começar por um trabalho a ser feito de
esclarecimento ao Governador do Estado, ao Governador Sérgio Cabral, que não
pode, de forma alguma, com a responsabilidade que tem, ser parceiro dessa
insanidade.
Muito obrigado.
TOPO
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